31 Meses – turbilhão de aprendizados e desafios!

OLYMPUS DIGITAL CAMERACada etapa vencida no processo de desenvolvimento dos filhos é uma vitória, cada fase nova mais desafios. Vivemos esses constantes e intensos ciclos de altos e baixos, mas sempre cercado de muitas novidades e aprendizados incríveis. Quem está de fora pode até pensar que estamos valorizando demais o que o pequeno acabou de aprender , porém, para quem está acompanhando desde o primeiro ultrason, cada movimento na barriga, o primeiro som até as frases completas, tudo parece incrível mesmo.

Tempos atrás estava aqui comemorando minha passagem com sucesso pelo terrible twos. Bom, poderia ficar quietinha e fingir que nada aconteceu depois disso e ela continuou um anjo! Mas não, ela se jogou no chão, gritou e fez mil birras homéricas depois daquela fase linda. Aqueles momentos em que você se pergunta: Meu Deus, o que eu estou fazendo de errado? Mas o que está acontecendo é ainda a mesma coisa: ela ainda não sabe comunicar eficientemente suas necessidades e acaba se estressando. Apesar de dizer às vezes que está com sono ou com fome, ela ainda é um bebê, e quando o cansaço aperta ela explode. Outra coisa é que cada vez mais ela precisa de interagir com outras pessoas, precisa de contato social e ficar em casa, que já era entediante, agora é um sacrifício.

Com 30 meses ela conheceu mais claramente o que é saudade. Viajamos sem o papai. Passei um mês fora de casa ouvindo mamãe eu quero papai, eu quero papai, eu quero papai. Ou uma variação disso: eu quero minha casa, eu quero meus brinquedos, eu quero Misk, eu quero Ana, eu quero Theo, eu quero….tudo que representava voltar para nossa cidade! Gente, acho que foi a pior viagem que fizemos nesse sentido, pois ela sofreu de verdade, chorava com um sentimento muito grande e eu desmontei várias vezes. Esse período ocorreu várias crises de birra e não foi fácil. Porém, eu sabia que estava sendo mais difícil para ela do que para mim. Ela estava descobrindo e experimentando um sentimento novo, e lidar com emoções novas não é fácil para os adultos, imagine para uma criança?

Um ponto forte que favoreceu essa intensa saudade é o momento de desenvolvimento que ela está vivendo, que é a separação emocional da mãe e ligação emocional com o pai. Toda criança passa por uma fase em que o pai é o ser mais importante do universo, assim como quando nós éramos o centro do universo deles. Isso acontece por volta dos dois anos, quando também está ocorrendo o processo de afirmação da identidade individual, a causa de todas as birras que eu estava falando antes. Bom, nesse processo de separação da mãe a criança vai se ligar com a energia masculina, pois até esse momento, se teve um vinculo seguro com a mãe, a energia feminina foi suprida. Então começa a ligação com o pai ou a figura masculina que estiver mais próxima.

Antes dessa fase Maria não chegava perto de nenhum homem estranho, tinha medo da figura masculina, só ia em colos de mulheres. Durante essa viagem ela ia para qualquer barbado que aparecia na frente. Adorava o colo dos tios e de qualquer figura masculina que oferecesse um ombrinho. Somando a falta do pai e a fase que ela está vivendo deu num amor total por toda figura masculina da família, para a alegria dos tios e vovôs de plantão!

Ela agora está aprendendo a brincar sozinha, passa horas criando histórias e situações. Criou um ônibus embaixo da mesa e passou uma semana indo para a casa das avós todos os dias. Adora trocar os papéis, diz que eu sou Moíza e ela é a mamãe, ou ela é mamãe e papai é o bebezinho dela. Ela pode ser uma lagartixa, um sapo, um gato, um cachorro e vai nos dando nossos papéis que devem ser interpretados com afinco! Conversa, conta história, e quer saber tudo o que estamos falando. Quer saber o nome dos modelos das embalagens, das propagandas, das imagens que ela vê no computador quando estamos mexendo, e ai de mim que não saiba o nome e sobrenome de todo mundo. Quer saber detalhes das histórias que contamos. Seu universo criativo é alimentado constantemente pelas histórias e musicas que ouve e produz inúmeras pérolas diariamente.

Dança reggae, dança trance, dança ao som de tudo…até de lepo lepo que ouviu no casamento do meu tio. Canta, canta e inventa canções só dela. Adora festa, não pode ouvir o som do tambor, da sanfona. Quer movimento, mas ainda se sente perdida quando está com muita gente. Quando chega em algum lugar, por mais entusiasmada que esteja, primeiro observa, depois se solta.

Ainda mama no peito, mama muito a ponto de me fazer pensar até quando eu vou aguentar. Mas isso passa e eu me pergunto se eu quero que ela me desmame. Aprendeu a dizer que me ama muito muito, espontaneamente. Tem o sorriso mais lindo do mundo e é a alegria das nossas vidas.

Você está crescendo tanto minha sementinha, que tenho vontade de parar o tempo, ao mesmo passo que quero ver você crescer!!! coisas de mãe!

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Falando pelos cotovelos…

Bom, ela já fala há bastante tempo.  A primeira palavra foi “mama” aos 7 meses, no mesmo dia falou “papa”. E desde então não parou. Com 1 ano falava muitas palavras e entre uma palavra e outra um bebeiês sem fim que era a coisa mais linda do universo. Agora com 2 anos e 4 meses é a maior tagarela perguntadeira que se tem notícia! Esse post deveria ter saído há tempos, tanta coisa eu nem lembro mais, mas vou tentar listar as coisas mais engraçadas ditas por ela e que nos fazem rir sempre.

 

A poliglota

Cantando em inglês:

– Neribiii, neribi…neribiiiiii

(let it be – beatles)

Falando espanhol:

Pede um copo com água, bebe até a ultima gota, coloca em cima da mesa e diz:

– Que rico!!!

Se esconde e quando aparece diz:

A cá está!

Declara seu amor pela boneca:

– Mi amor!

Pronuncias engraçadas

– Mamãe qué chá…chazinho!
– De que?
– Pamolmila!

…….

– Mamãe, qué mais bodoim*!!!

*amendoim!

……..

– Mãe, onde foi o mocóptero*?

* helicóptero

Perguntas engraçadas

Entramos numa loja no natal e ela vê um Papai Noel da altura dela. Fica parada diante da figura , faz cócegas em um sovaco do boneco e espera. Faz cócegas no outro sovaco e espera. Ai eu chamo para sair da loja. Ela me acompanha pensativa. No meio do caminho pergunta:

– Mãe, papai Noel tem “suvaco”?

Vendo o pai nu no banho pergunta:

– Tio Paulo tem pinto?

Vendo os peixinhos no mar:

– Mãe, peixe tem perna?

Observando uma mosca:

– Mãe, mosca tem dente?

– Não filha.

– Ela já “rancou”?

Descobrindo o sabor do mar

Passa a língua nos lábios:

– Tá salgado!

Dedinho na água do mar, dedinho na boca:

– Gostoso!

De onde vem os bebês

Descobriu que os bebês saem da barriga de suas mães e lógico que suas bonecas vivem saindo da barriga dela! Outro dia foi brincar na casa de uma amiga e esqueceu uma de suas bonecas. Houve alguns desencontros até que eu pudesse buscar a boneca e ela lembrava da criatura diariamente. Numa tarde estava conversando sozinha:

– Neném “queceu” na barriga. Ai, ta saindo, saindo, saiu lá na casa de Raquel!

E como ela chegou…

– Moiza “queceu” na barriga de mamãe, ai papai deu um beijo e saiu. Agora Moiza “quece” fora!

Consumo

Estávamos voltando do passeio da tarde, nossa casa fica no topo de uma ladeira. Ela pediu colo eu a coloquei no ombro, mas ela queria o colo. Então pedi para ela ficar um pouco, pois eu estava cansada e nós já estávamos chegando. Nisso, passa um carro…

– Quero um desse… (contemplativa)

– um desse o que?

– um carro desse,  para papai “dirigi”!

……

No mercado:

– Quero azeitona!

– Porque?

– Moiza “pecisa”!

– Mas já estamos levando o que precisamos.

– Moiza não “pecisa” não, já tem em casa!

…..

-Mãe, Moiza “pecisa” de um desse! (Mostrando o desenho de uma lupa num livro.)

Para não deixar dúvidas

Ela adora ajudar o pai a cortar o cabelo. Estávamos na casa de amigos e ela começou a contar que tinha cortado o cabelo do pai.

Léo: Foi mesmo, você cortou o cabelo do papai?

–  Cortei!

Léo: Com maquina?

– Foi!…Mas não foi a maquina de lavar!

Ativista em prol da amamentação (orgulho da mamãe)!

Ela nunca joga as coisas pela janela, numa tarde me surpreendeu fazendo isso com a mamadeirinha de uma de suas bonecas, então perguntei:

– Filha, você está brincando de quê?

– De jogar as coisas fora.

– Tá, mas se você jogar a mamadeira fora como a boneca vai mamar?

– No peito!

Até ela sabe que mamadeira é coisa inútil!!! Expliquei que quando quiser jogar algo fora que use o lixo, não a janela!!!

Ativista em prol da alimentação saudável (orgulho da mamãe II).

No mercado viu uma mulher oferecer bala ou chiclete para a filha, mais ou menos da mesma idade dela:

– Mãe, a mamãe dela ta dando “chiquete” para ela.

– Eu sei filha (tentando disfarçar).

– pode?

– A mamãe dela deixa não é, então ela pode?

– Moiza pode?

– Não

– Porque tem açúcar, faz mal para os dentes, para o sangue, para a barriga…

– é…

– A mamãe dela sabe, mãe?

Contradições

1 . Eu faço bolos com o mínimo de açúcar possível, aqui usamos muito pouco e cada vez menos. E ela já sabe que açúcar é algo ruim. Porém, estava fazendo um bolo e ela estava me ajudando. Quando fui colocar o açúcar (a receita indicava 2 xícaras e eu estava colocando 3 colheres) ela me perguntou:

– Mãe, o que você está colocando ai para Moiza comer?

2 . Eu estava limpando o quintal e retirando os matinhos. Sempre ensino ela a ser delicada com as plantas e não sair arrancando folhas e flores. Quando me viu arrancar o matinho, exclamou!

– Mãe, devagar com as bichinhas!

Solidária

Estávamos passeando e eu convidei para voltar para casa:

-Vamos filha para casa, ver papai.

–  é …ver o bichinho.

– que bichinho?

–  papai, o bichinho ta sozinho!!!

Tudo depende de como se vê

A avó Ana comentou que o vizinho tinha pintado a parede e respingado a janela dela de tinta. Esse comentário foi feito sem que ela visse. Em outro momento ela viu os respingos de tinta na janela falou:

– Olha a arte mãe!

Decorando histórias

Gritando correndo pela casa:

– Convocação geral!!!!

Trecho do livro: A Bela Borboleta, Ziraldo.

Toda vez que a gente fala “maaaass”, desse jeito arrastado, ela completa:

– Quando a caixa se abriu Lino encontrou uma menina que se chamava Estrela. Ele não sabia explicar, mas achou aquele nome ENCANTADOR! (a ultima palavra é em tom mais alto e com uma carinha que só vendo!!!)

Trecho do livro: Lino, André Neves.

Toda vez que ouve os cachorros do vizinho latir:

– Nãããããão.

Livro: Não, Marta Altés

Da série: Saia justa é apelido!

Em visita na casa de uma amiga, ela pede para lavar a mão. Minha amiga lava mão dela e oferece um pano para secar.

– mãe, to enxugando a mão!

– é filha?!

– No pano de chão!

– :O

(o pano estava manchado)

Da série: Do jeito que você mandou:

Ela correu para o vovô perguntando cadê a vovó. O vovô respondeu que estava lá em baixo e disse: chama ela lá.

–  Elaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

Matemática e finanças

Voltando para casa eu mostro o céu estrelado:

– Filha, olha as três marias!

– Três não, uma está indo para casa!

…..

Vê um monte de moedas e pergunta:

– O que é isso?

Antes que eu respondesse ela completa:

– É credito!

……

O pai estava abrindo o pacote de biscoito de povilho e perguntou:

– Você quer 1 ou 2?

– Um e dois! Um para você e dois para mim!!!

 Entendendo a família

– Mamãe é mulher do neném que saiu da barriga da vovó Ana!

Acredite se quiser…ela falou isso!!!!

Agradecendo

Ela termina de fazer cocô e grita:

– Papaaaaaiii

– Já terminou? – Pergunta o pai.

– Já, graças a Deus!

Cuidando da mamãe

Mamãe com dor na coluna:

– Ai filha, minha coluna ta doendo, deixa eu sentar aqui um pouco.

– Toma esse suquinho mamãe, é remédio! Já vai passar, acontece!!!

Além de tudo acredita fielmente no poder de cura do beijo.

É ou não é a coisa mais fofa da mamãe?

E ai, o que seus pimpolhos andam falando?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Terrible Two – Intensos Dois Anos

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Momento de brincadeira com amigos onde ela estava introspectiva.

Para quem não sabe, Terrible Two é termo em inglês que designa uma fase de desenvolvimento infantil que ocorre por volta dos dois anos. Eu particularmente achava o termo pejorativo demais. Porém, hoje sou capaz de entender um pouco a escolha, embora acredite que poderíamos usar um termo mais positivo para essa fase fantástica do desenvolvimento infantil.

Crianças entre 18 meses e 3 anos podem sofrer fortes variações de humor e demonstrarem confusão em relação aos seus desejos. Nessa fase a criança pode apresentar alta irritabilidade e ter muitas crises (“birras”).

Isso acontece por que estão passando por mudanças nas habilidades motoras, mudanças intelectuais (incluindo, segundo alguns estudos, poda neuronal), mudanças sociais e emocionais. Estão vivendo um grande conflito entre ser altamente dependente dos adultos e terem vontades próprias que são incapazes de manifestar de forma clara e compreensível. Embora estejam aumentando seu vocabulário e tendo grandes evoluções motoras ainda não conseguem, por conta própria realizar as atividades que desejam e isso causa grande ansiedade e frustração.

Em posse dessas e de outras informações eu aguardei a chegada dessa fase. Juro que imaginei que tiraria de letra, ainda mais sabendo que era um momento especial para ela e que tudo iria passar, mas…

A tão esperada fase chegou por volta dos 19 meses, com os frequentes nãos e algumas birrinhas leves, nada demais!

Não lembro quando aconteceu a primeira grande crise, elas começaram a acontecer gradativamente. Um dia ela se jogou no chão do mercado, não pensei muito e ao invés de pedir para ela levantar gritei: Olha quem está passando lá na rua!! Ela levantou como se nada tivesse acontecido e tudo voltou ao normal.

Muitos outros momentos foram surgindo, até então não estava nem achando tão tenso, estava tendo lucidez para colocar em prática boa parte das coisas que eu aprendi lendo.

Porém, à medida que os dois anos se aproximavam a coisa parecia piorar. Ela odiava escovar os dentes, mas tinha dia que odiava do fundo da alma a ponto de passar horas chorando descontroladamente por que tentei escovar. Ela não podia ouvir não. Ela mudava de ideia em questão de segundos. Ela se jogava no chão por qualquer motivo. Ela ficava transtornada por coisas teoricamente simples e que não a irritavam antes.

Essas situações passaram a ser muito aflitivas para nós, era nítido que ela não estava bem. Era claro que ela sofria muito mais que nós com a inquietação que sentia.

Eu fiquei nervosa muitas vezes, pedi para ela parar muitas vezes, mas em vão.  Nesses momentos tivemos um anjo, o papai. Ele também estava estudando muito sobre o assunto e puxava minha orelha toda vez que eu esquecia o que tinha lido. Ele me fazia lembrar que eu era a adulta da situação e a única com capacidade neurológica de me controlar e entender aquele momento, por mais cansada que eu estivesse.  Ele foi fundamental.

E o tempo foi passando e a coisa parecia piorar. Os três meses antes do aniversário foram muito tensos. Muitas crises. E se era hora de comer ou dormir então ai é que a coisa desandava. O aniversário foi se aproximando e tinha dias de choro diário. Eu quase sem conseguir dar conta do básico da casa. Ela querendo colo, não querendo colo, querendo tomar banho e de repente fazendo escândalo nesse banho. Pentear o cabelo nem pensar, assume o Black Power mesmo e sejamos felizes!

Parece drama de novela mexicana, eu lia que isso poderia durar até os 3 anos e ela nem tinha completado dois! Aos poucos fui identificando algumas situações de risco e aprendendo a contornar as crises. Apesar de cansada também me encantei com  os aprendizados da fase, com a quantidade de palavras novas que ela aprendia por dia, com o notável desenvolvimento motor e com a capacidade dela de se expressar cada vez mais apurada nesse período.  Poderia ser desesperador em alguns momentos, mas era também compensador ver que ela estava se desenvolvendo bem e saudável.

Na semana do aniversário ela ficou doente. Febre durante três dias sem parar e nenhum outro sintoma. No final desse período manchas vermelhas no corpo. Constatamos que era Roséola. O dia do aniversário estava ainda se recuperando e fizemos uma rápida e pequena comemoração em casa.

E como um passe de mágica, como se alguém tivesse vindo tirar com as mãos toda aquela confusão existente naquele pequeno ser , ela mudou!  E que mudança. Um belo dia, logo após o aniversário, ela acorda feliz e falando pelos cotovelos, numa velocidade que nunca tínhamos observado antes. Frases completas. Sorria o tempo todo, sem crises e incrivelmente feliz!

Assim ela permanece, salvo momentos de tédio,  constantemente alegre. Não quer dizer que tudo acabou, que o tal terrible twos tenha chegado ao fim e que será assim com todo mundo, cada criança é um caso, algumas passam por isso sem que os pais notem grandes mudanças de comportamento.

Viajamos nas festas de final de ano para a casa dos avós, foi só alegria. Ela reconheceu todos os lugares que chegamos, foi  receptiva com todos que encontrava. Suportou, em alguns momentos, a fome enquanto procurávamos um restaurante dizendo apenas que estava com fome. Iniciou o desfralde, fala mais a cada dia e é a criatura mais curiosa do planeta perguntando tudo sobre tudo o que vê. Deixa escovar os dentes sem chorar, deixa pentear os cabelos e escolhe quantas xuxinhas mamãe vai colocar, adora tomar banho sozinha, está aprendendo a se vestir  e ama ajudar em todas as tarefas.

A lição que fica de tudo isso é: entenda seu filho. Você não precisa provar que comanda a situação, seu filho não está te desafiando, não é uma disputa para saber quem é mais forte. Você é o adulto e ele é uma criança aprendendo como lidar com esse mundo tão confuso. Você pode até se sentir cansado e desanimar em alguns momentos, mas lembre-se de que para eles passar por isso tudo e não ter os braços de quem mais ama para dar apoio e amor é o mesmo de se sentirem abandonados no momento que mais precisam.

Eu mudaria o termo para Intensos Dois Anos, pois é uma fase cheia não só de crises terríveis, mas de aprendizados intensos e fantásticos para pais e filhos!

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Desfralde

OLYMPUS DIGITAL CAMERASempre fiquei imaginando como seria o desfralde ou quando ocorreria. Eu não tinha nenhuma referência disso, mesmo tendo acompanhado o crescimento do meu irmão de perto, só lembrava que ele havia desfraldado por volta dos dois anos. Então eu não lembrava dos detalhes, não lembro dele dando tchau para o cocô ou usando penico.

Eu não sabia como seria, mas me preparei como pude para esse dia tão esperado (especialmente por quem opta pelo uso de fraldas de pano). A escolha das fraldas de pano foi uma das escolhas feitas pensando no desfralde e foi  excelente nesse sentido. Geralmente o tempo médio do uso de fralda diminui em bebês que usam fralda de pano, pois o contato com as fezes e urina úmida no bumbum não é uma sensação agradável para nenhum ser vivente. Outro fator foi nunca deixar ela suja por muito tempo, pois acostumada a estar sempre limpinha, esse incomodo teoricamente seria ainda maior.

Bom, mas como eu já disse, tudo era teoria. Ela foi crescendo e realmente o incomodo com a fralda suja era evidente desde muito novinha, a única forma de ficar tranquila com a fralda suja era se algo muuuuuuuuito interessante a distraísse.

Quando completou um ano esse incomodo foi crescendo e ela aprendeu a reconhecer quando estava fazendo xixi e cocô, porém chamava os dois de xixi. Então percebi o primeiro sinal de que ela poderia desfraldar, imaginava que por ela já reconhecer os dois e avisar algumas vezes isso ocorreria bem rápido (ledo engano). Comecei a deixa-la de calcinha. Mil xixis no chão, avisados, porém nunca a tempo de ir ao banheiro.

O tempo foi passando e situação não evoluía, pesquisei muito, relaxei. Deixava a vontade, mostrava o que era xixi e cocô, tentava colocar ela para sentar no penico (ela tinha pavor), enfim. O inverno chegou e com o frio não dava para deixar ela molhar mil roupas todos os dias, então voltamos a usar fraldas diariamente.

O clima voltou a esquentar e ela continuava a avisar e chegou a fazer alguns xixis no penico nesse intervalo, o que era muito comemorado. Com o clima favorável voltei a deixar ela sem fralda durante o dia. Novamente mil xixis avisados no chão, continuava explicando que poderia sentar no penico igual a mamãe e quando eu ia ao banheiro ela queria ir e sentar também no penico, mas só ficava sentada milésimos de segundos, depois levantava e fazia tudo no chão.

Comecei a notar que ela estava prendendo o cocô quando estava nua, avisava, mas só fazia quando estava de fralda. Um dia ela estava no quintal comigo molhando as plantas, nua, já estava querendo fazer cocô, mas resolvi deixar sem fralda para ela fazer assim, tentei várias vezes colocar no penico, disse que poderia fazer no chão, mas ela estava segurando. Então, enquanto molhava as plantas a vontade veio com força e ela fez cocô. Aquela cena para ela foi terrível, ao ver seu cocô no chão ela se desesperou, queria que eu a pegasse imediatamente e na confusão pisou suas fezes!!!

Nunca imaginei que pisar no cocô poderia ser algo tão terrível. Mas para ela foi. Desespero total, ela gritava e eu gritava meu marido para que nos salvasse do cocô maldito grudado na sandália, pois ela não deixava eu fazer isso. Ai a coisa desandou. A hora do cocô virou um tormento, ela não queria mais fazer em lugar nenhum, nem na fralda. Gritava que ia cair no chão. Começou a prender mesmo e eu comecei a ficar preocupada e arrependida.

Bom, foi ai que toda a informação foi importante, a regra de ouro nesse momento foi: Paciência! Voltar atrás foi fundamental. Voltei para a fralda e conversei muito com ela. Expliquei que fazer cocô era normal, que todo mundo fazia, papai e mamãe também. Era um tal de ver o cocô de todo mundo e dar tchau, ver nosso cocô era uma alegria para ela. Na hora que a vontade vinha ela começava a dizer: Cocô é “nomal”, papai faz, mamãe faz! Passei a mostrar o cocô dela para ela e deixava participar do ritual de jogar cocô fora e dar descarga. Olhava o próprio cocô e avaliava o tamanho, o formato, se tinha milho, lentilha e etc.

Assim foi, com o tempo ela começou a ficar sem fralda, na hora do cocô eu colocava a fralda e ela fazia. Eu tentava lembrar ela antes do xixi para fazer no penico, mas a maioria era no chão mesmo. Os únicos lugares que ela não fazia xixi eram na cama, rede ou colchonete que temos na sala. Ela sempre saía desses lugares antes de fazer xixi e na soneca da tarde podia colocar ela para dormir nua, ela acordava quando estava muito apertada e não molhava a cama.

Nesse processo ela conseguiu me avisar algumas vezes do xixi, mas quando colocava no vaso ou penico ela não conseguia liberar, só depois quando já havia desistido o xixi vinha. Mas continuamos a colocar sempre que ela avisava, ou também a levávamos para ficar um pouco sentada e esperar o xixi chegar. Um belo dia rolou o xixi no vaso. Muita festa!!! Ela queria ir sempre, mas nem sempre dava tempo ou não conseguia soltar, então a maior parte do xixi continuava a ser no chão.

Mas o número de xixis no vaso foi aumentando e eu percebi que ela já estava aprendendo a soltar o xixi na hora certa. Então foi a hora de me policiar e lembrá-la de fazer xixi com frequência, pois quando ela lembrava já estava muito próxima de fazer xixi e na maioria das vezes não dava tempo de chegar no vaso. Assim o numero de xixis no vaso foi crescendo e era uma festa só!!! Queria mostrar para todos. O cocô continuava na mesma, quando dava vontade tinha que colocar fralda.

Então fui para a casa da minha mãe com uma menininha que fazia quase 90% dos xixis no vaso e cocô na fralda. Sabendo disso, me senti muito a vontade de deixá-la de calcinha, no mesmo ritmo da nossa casa. Resultado é que, no primeiro dia, ela fez TODOS os xixis no chão, na cama e onde mais ela estivesse. Bom, julguei que por estar num ambiente novo ela não estava preparada para continuar no mesmo ritmo. Então esse dia terminou de fralda, o dia seguinte quis seguir de fralda, mas ela se recusou.

Já acordou pedindo para tirar a fralda, eu tirei e ia colocar outra, mas ela não deixou. Pedi para me avisar o xixi e estava que nem sombra para ela não sair molhando a casa toda outra vez. Ela fez todos os xixis no vaso. Veio a vontade de fazer cocô, e ela disse que ia fazer no vaso. Em outras ocasiões ela disse que iria fazer cocô no vaso, sempre a encorajamos, colocava e nada acontecia, ela saia e eu dizia: Na próxima você faz filha.

Eu não neguei o pedido dela novamente, colocava no vaso toda vez que ela anunciava que faria o cocô no vaso. Mas ela não conseguia soltar e estava ficando irritada, pois estava  muito apertada. Então comecei a oferecer a fralda, ela se recusava, calcinha também nem pensar. Fomos no vaso umas 10 vezes e ela cada vez mais irritada. Então eu resolvi colocar a fralda contra a vontade dela, pois a irritação já estava muito grande e ela não conseguia comer ou dormir por conta disso. Falei que não tinha problema, poderia fazer na fralda ou onde ela quisesse. Coloquei a fralda e ela pediu para mamar.

Estava mamando quando de repente saltou do meu colo e correu para o banheiro, onde tirou a fralda e gritou que queria fazer cocô no vaso. Coloquei e ela fez!!!

Parece caduquice de mãe coruja e boboca, mas eu me emocionei com a determinação dela, e até hoje ao lembrar arrepio. Ela reconheceu o tempo dela, ela precisava dessa experiência, ela quis fazer o cocô no vaso por livre e espontânea vontade. Desde então ela fez poucos cocôs na fralda. Agora quase  todos os cocôs e xixis são no vaso e não usamos mais fralda durante o dia.

O lindo é como ela se orgulha, como se sente feliz por isso. Senta no vaso dizendo o que vai fazer e a ordem: Primeiro o cocô, depois o xixi e depois uhuuuuu (comemora)!!!

Maravilhoso como tudo foi no tempo dela e como foi importante recuar no momento certo. Entender que uma dificuldade é só uma dificuldade, ela pode ser vencida sempre, não importa o tempo que isso leve.

Maria está com 2 anos e 1 mês ainda usa fralda para dormir e para passeios longos. Muitas vezes acorda com a fralda seca e logo vou começar essa etapa do desfralde noturno. Ainda tenho dificuldade com o desfralde na rua, pois nem sempre temos disponíveis banheiros públicos minimamente limpos.

O aprendizado maior disso é que tudo tem um tempo certo para acontecer e se confiarmos nos nossos filhos eles saberão mostrar quando estarão prontos para evoluir. Muitos fatores podem ter contribuído para chegarmos aqui aos 2 anos e 1 mês de idade,mas o principal, com certeza, foi a paciência e o respeito pelo tempo dela.

Estou feliz e orgulhosa que tenha sido assim, no tempo dela. Todo esse processo foi um grande aprendizado.

Quem tiver dicas de como proceder para um desfralde completo, por favor comente, conte sua experiência, quero saber como foi com vocês!!!

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2 anos!

Cheia charme!

Cheia charme!

Chegamos ao segundo ano de vida dessa sementinha que definitivamente mudou nossos rumos. Nesses momentos um turbilhão de coisas passam por nossas cabeças. Hoje eu passei o dia pensando que você agora estava deixando de ser bebê, iniciando um processo de separação emocional entre nós duas.  É maravilhoso assistir você crescer, mas as vezes dá um pouco de medo/insegurança, porque perto da gente tudo parece mais seguro, pareço capaz de evitar tudo de ruim…mas essa é uma grande ilusão. Agora que sou mãe de uma menininha sinto as mudanças chegando, sinto que a casa deve se readequar, que eu tenho que mudar algumas coisas para acolher você da melhor forma em suas necessidades.

Você agora passa pelo Terrible Twos, neurologicamente falando seu cérebro está passando por transformações importantes para seu desenvolvimento e este é um momento delicado. Você se sente confusa, não consegue expressar ainda suas emoções, seus desejos e muitas vezes acaba berrando, se jogando para trás na tentativa de nos fazer entender o quão frustante é não saber se comunicar completamente. Eu entendo filha, embora as vezes é complicado te segurar para que você não se machuque. Eu e papai lemos muito sobre esse momento e estamos aprendendo muito sobre como te ajudar e sobre como isso é importante para seu desenvolvimento. E é assim, se informando, que a gente consegue evitar muitas dessas birras e todo o caos que as vezes parece se estabelecer dá lugar a alegria de seu sorriso.

Essa é uma fase linda também. Você está aprendendo muito. Fala tudo, já constrói frases. Questiona, compara, canta, dança. Recentemente conheceu os Beatles e sua musica favorita é Yellow Submarine. Canta enquanto brinca com suas bonecas. Adora me ajudar nas tarefas domésticas e o que mais tem gostado é cortar os alimentos com sua faquinha, está cada vez mais craque nessa tarefa. Cozinhar comigo é um prazer, nem sempre a mamãe consegue administrar a bagunça, mas assim você tem aprendido varias coisas. Tudo que estamos preparando você experimenta e assim conhece o gosto da cebola e sabe que ela faz arder os olhos, que o gengibre é gostoso mas é bem melhor na comida, reconhece quase todas os legumes e frutas, adora tomatinhos. Essa semana cortando um tomatinho com sua faquinha acabou arranhando o próprio dedo, melhorando ainda mais a forma de manusear a faca. Adora fazer bolo e biscoitos com a mamãe e sempre come mais do que ajuda!

Também está aprendendo a cortar papel com tesourinha e fica toda concentrada nessa tarefa. Ajuda a mamãe a lavar louça e de quebra lava a cozinha, pois molha tudo. Está aprendendo a arrumar a cama e também ajuda a guardar as roupas. Outra coisa que aprendeu recentemente é jogar o lixo no banheiro apertando o pedal da lixeira sem colocar a mão na tampa, e quer fazer isso mil vezes.

Parece estar lateralizando e deve ser canhota, algumas tarefas realiza com a mão direita, mas a maioria é com a mão esquerda. As vezes a mesma tarefa tenta com as duas mãos, mas termina sempre com a mão esquerda. Já sabe o movimento de desenhar bolas e cada vez que repete esse movimento o desenho fica mais perfeito. Reconhece algumas cores…principalmente o “gemelho” (vermelho).

A pergunta que mais repete é: que isso? ou quem é esse? Solta um “oxe” para cada coisa que vê fora de contexto, como por exemplo a alça da minha blusa caída: Oxe mamãe, veste! O mouse caído no chão: Oxe, mase caiu! entre outras.

A escaladora!

A escaladora!

Anda todo o quintal e adora escalar as pedras. Quando vamos ao rio, adora caminhar e dizer que é escaladora! Agora sai com o pai numa boa e na saída fala mil vezes: Tchau mãe, já volto viu!!!

Cada dia cresce…cresce tanto que eu não sei onde vai parar, não só em tamanho, mas nas atitudes que cada dia mais revelam a menininha por trás do bebê que a mamãe insiste em enxergar.

Todos os dias, sem exagero, eu aprendo mais com você. Todos os dias eu agradeço a Deus por essa oportunidade de te ver crescer. Todos os dias eu tenho vários motivos para sorrir…é só olhar para você.

Brincando no rio!

Brincando no rio!

Dois anos atrás, nesse exato momento, estava sentido as ultimas contrações, você nasceu e veio para meus braços, nunca vou esquecer a primeira vez que nos olhamos, a primeira vez que você mamou. Gostaria de poder guardar na memória tudo, lembrar de todos os momentos detalhadamente, é impossível, mas sei que o melhor está guardado em nós três e nunca vai se apagar.

Não existem palavras capazes de expressar tamanho amor. Não existe como descrever tamanha felicidade, hoje você completa mais um ano de vida, linda, saudável, inteligente, a menina dos meus sonhos. Só quero agradecer por ter me escolhido, por iluminar meus dias.

Te amo filha, felicidades sempre. A mamãe e o papai estará sempre ao seu lado zelando para que você tenha uma vida plena e feliz!

 

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Completou 6 meses! e agora? – sobre a introdução de alimentos sólidos e como o livro do Dr. Carlos Gonzalez me ajudou

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Aos seis meses, raspando a maçã com os dois dentinhos.

Estou devendo esse post faz tempo, afinal Maria já está com 21 meses. Mas foi bom esperar, pois assim terei mais bagagem para falar sobre o assunto. Alimentação infantil e principalmente a introdução de alimentos sólidos dos bebês sempre é um assunto que gera muita polêmica e que tira o sono das mamães. Eu fiquei super apreensiva nessa fase, afinal é muito mais prático sacar a petchola sempre que a cria solicita e não ter a preocupação com a qualidade ou quantidade de nutrientes que este está recebendo.

Saber que nosso leite é o alimento completo e perfeito para nosso bebê nos deixa tranquila. É bem verdade que muitas vezes nem essa consciência deixa a gente dormir direito. Sempre nos questionamos se nosso rebento está crescendo e se desenvolvendo tanto e tão bem quanto o filhote da vizinha, afinal o gramado alheio sempre parece mais verdinho e isso gera dúvidas até sobre a qualidade do próprio leite.

Quando chegou essa fase eu tive a sorte de ter encontrado na blogosfera uma boa quantidade de informação de ótima qualidade a qual eu  pude recorrer. Não quis recorrer aos pediatras, pois já sabia que teria que fingir estar fazendo o que eles costumeiramente indicam para não bater testa. Então fui tirando minhas dúvidas pesquisando e lendo tudo o que podia sobre o assunto. Até que encontrei a bíblia da alimentação dos bebês. Exatamente isso que você leu A BÍBLIA, pois é assim que eu considero o livro Mi Hijo No Me Come de Carlos Gonzales. E considero assim porque este livro responde todas as questões sobre alimentação que uma mãe poderia ter e vai além, pois levanta uma bandeira muito importante: Confie e respeite seu filho. Essa mensagem é a mais forte que pude notar nessa obra e permeia cada conselho dado.

Então vou falar aqui da minha experiência e sobre o que li no livro.

Sobre a amamentação

Não deveria ser necessário dizer que o leite materno é o único alimento completo existente para bebês. Infelizmente, precisamos afirmar o óbvio contra toda a propaganda de formulas alimentícia para bebês. Sim mamãe, seu leite é completo, você não precisa produzir mais leite, o que você produz é suficiente e adequado para seu filhote. Você não precisa educar seu filho com horários, ele sabe melhor que ninguém as necessidades que tem e mama a quantidade que é necessário para seu bom desenvolvimento, nem mais nem menos. Então se você amamenta em livre demanda, esqueça o relógio. Quem amamenta em livre demanda saca a petcha na hora que a cria solicita e pronto. Não fica pensando que ele mamou há 5 minutos, ou que já tem 5 horas que ele mamou, ou ainda que faltam 5 minutos para completar 3 horas da ultima mamada. Amamentar em livre demanda é amamentar quando o bebê solicitar, seja de cinco em cinco minutos ou de cinco em cinco horas.

A produção de leite é regulada pelo bebê, não é algo que acontece individualmente, por iniciativa do seu próprio corpo, é a sucção do bebê que estimula a produção. Se o bebê mamar muito terá muito leite, se o bebê mamar pouco terá pouco leite. Na verdade temos que dizer que a quantidade de leite que a mãe produz é exatamente a quantidade de leite que o bebê solicitou. Então se seus seios estão aparentemente vazios e seu bebê mama em intervalos muito largos, mas é uma criança alegre e está crescendo normalmente, tranquilize-se, seu filho está bem alimentado e você tem a quantidade de leite normal. O mesmo vale para a mãe de bebês que mamam em intervalos curtos, ele não faz isso porque seu leite é fraco e sente fome mais rápido, o faz porque seu metabolismo tem esse ritmo.

Sobre o crecimento

Quantas pessoas da sua idade você conhece? Quantas pesam o mesmo que você? Você já perdeu a noite pensando: Meu Deus, minha amiga tem a mesma idade que eu e pesa 500g a mais, tem algo errado comigo!? Pois é, parece bizarro, mas ninguém fica comparando a altura nem o peso entre as pessoas da mesma idade. Porque será que fazemos isso com as crianças? Existe um padrão de robustez e saúde estipulado para crianças que todos querem seguir. Algo vendido por empresas alimentícias que eu nem vou citar o nome, mas que vem sendo arraigado na sociedade desde a revolução industrial. Sem entrar profundamente nesse contexto histórico, a realidade é que com base nesse padrão desejamos que nossos lindos bebês sejam robustos e rosados como os bebês dos comerciais e qualquer coisa fora disso é vista como estranho.

No livro, Dr. Carlos Gonzales, explica as curvas de crescimento que são os parâmetros utilizados para acompanhar o crescimento das crianças. Resumindo, o Dr. Carlos Gonzales explica que as curvas de crescimento foram produzidas a partir da média de crescimento de milhares de crianças. Elas apresentam três faixas, uma onde o peso é considerado abaixo da média, outra onde o peso é considerado dentro da média e a ultima considerada acima da média. Se o peso do seu filho está posicionado abaixo da linha média não quer dizer que ele tem problemas. Só o fato dele estar com baixo peso de acordo com o gráfico não quer dizer nada. Afinal existem muitas pessoas magrinhas no planeta que não passam fome e não são doentes. Se a criança está normal, tem energia para brincar, está feliz, dorme bem não há com que se preocupar. Esse é o ritmo dela e deve ser respeitado.

Sobre o significado de Alimentação Complementar

Quando a criança completa cinco meses muitos pensam em ir acostumando logo a criança com outros alimentos para que nos seis meses já esteja acostumado e coma tudo o que for oferecido. Eu já cheguei a reproduzir essa pérola. Mas agora, depois de estudar bastante, sei que isso não só está errado como pode atrapalhar e muito o processo.

Primeira coisa que a mãe deve saber é que a criança deve ser amamentada EXCLUSIVAMENTE até os seis meses. Isso todo mundo já sabe, mas não custa nada repetir. E a segunda coisa que as mamães devem saber é que a alimentação oferecida quando completam os seis meses é complementar.

O que significa dizer que a comida oferecida ao bebê nessa fase não é mais importante do que o leite materno. Ele definitivamente não precisa comer toda a papinha deliciosa que a mamãe preparou, beber os suquinhos e comer as frutinhas. Isso porque o leite materno deve continuar sendo seu principal alimento, pois é o mais completo.

No caso de crianças que tomam o leite artificial, que é incompleto nutricionalmente, provavelmente com seis meses a criança já vai ter começado a comer outras coisas. Nesse caso os outros alimentos tem mais importância, pois complementam as necessidades nutricionais do bebê.

Porque só começar aos 6 meses a oferecer alimentos sólidos?

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Com 8 meses comendo beterraba cozida no vapor.

O trato intestinal do bebê só está pronto para receber alimentos sólidos a partir dos seis meses de vida. Antes disso o bebê não possui proteção intestinal contra substâncias de alguns alimentos que podem provocar alergias se caírem na corrente sanguínea. Além disso nessa fase o bebê tem reflexo de propulsão da língua, mecanismo que evita que o bebê engasgue, faz com que ele empurre o alimento para fora da boca e não para a direção de ser engolido. Também o aparecimento dos primeiros dentes, na grande maioria das vez es, é entre os 5 e 7 meses que é mais um sinal de que o organismo da criança está apto para receber alimentos sólidos.

Outro fator importante é a capacidade de se sentar para o estabelecimento da alimentação com alimentos sólidos, pois é feita de forma diferente da amamentação que é associada ao aconchego, carinho e também ao sono.

Por fim, o estabelecimento dessa idade para o início da introdução de alimentos sólidos é também pelo fato das reservas de ferro do bebê baixarem muito nessa fase.  Os bebês já nascem com uma boa reserva de ferro que é suficiente para mante-lo saudável até os seis meses (salvo casos específicos, como bebês prematuros e filhos de mães subnutridas), porém a demanda por ferro do organismo aumenta e o leite materno não é capaz de suprir já que, como todo leite, não é rico em ferro.

 Como começar?

Não existe uma regra bem estabelecida que determine como começar a introdução de alimentos em lactantes. Alguns acreditam que começar pelas frutas seja melhor, outros pelos cereais, enfim, não existe mesmo uma regra. O Dr. Carlos Gonzales diz que não importa. Comece a introdução da forma como você achar melhor dentro do seu contexto, lógico, sendo sensata e não oferecendo alimentos que podem prejudicar a saúde do bebê.

Comece com calma e sem criar expectativas. Não pense que seu filhote vai amar a primeira fruta que comer, ele vai fazer muita cara feia, afinal ate hoje só tomou seu leite. É muito importante não forçar. Nada de enfiar garganta a baixo o que você estiver oferecendo. Nada pode ser mais desrespeitoso e doloroso do que ser obrigado a comer sem vontade, nada pode provocar mais rejeição ao alimento do que isso. Tenha calma. Se estiver oferecendo com uma colher, espere o bebê abrir a boca para colocar a colher dentro. Se ele não estiver aceitando a colher, que tal tentar oferecer com o seu dedo, passando delicadamente o dedo melado nos seus lábios para que experimente.

Delicadeza, paciência e informação são o que mais as mães precisam nessa fase.

Como eu comecei?

Aqui eu comecei com as frutas. Dentre as dicas que eu li, uma foi de oferecer a mesma fruta durante 3 dias e observar a reação. Isso porque nesse período você pode observar se a criança tem ou não alergia, se essa fruta solta o intestino ou prende e se a criança gosta. Muitas vezes é necessário oferecer o mesmo alimento no mínimo 10 vezes até que a criança se acostume e realmente goste. Então se algum alimento for recusado hoje, tente oferecer amanhã de outra forma. Maria Luiza nunca gostou de banana amaçada e maça raspada e nada desse tipo, então sempre ofereci as frutas em pedaços mesmo e ficava observando.

Depois de ficar mais de duas semanas oferecendo frutas, comecei as papinhas salgadas. Comecei oferecendo como as frutas, um legume de cada vez, sem misturar e observar a reação. Ela desde o principio não gostou de colheres e não estava tendo sucesso oferecendo as papinhas salgadas com colher, ela não abria a boca, no máximo puxava a colher da minha mão para brincar. Então resolvi deixar ela pegar a papinha com as próprias mãos e experimentar se sentisse vontade. Fazia sempre na consistência de purê e oferecia para ela, deixava livre para meter a mão e melar o quanto quisesse. Ela sujava a mão, a cabeça e tudo o que estava a sua volta e experimentava. Às vezes só experimentava mesmo, depois não colocava mais nada na boca, outras ficava chupando os dedinhos o tempo todo. Deixá-la comer assim foi a melhor coisa que eu fiz. Ela sentia o cheiro e a textura dos alimentos, saboreava não só com a boca mas também com o olfato.

Como é hoje?

Com 20 meses, comendo sozinha sentada na mesinha.

Bom hoje eu tenho uma menina que come quase tudo. Sempre me preocupei em oferecer alimentos frescos, sem açúcar, com o minimo de sal possível e nada industrializado. Também não comemos carnes e ela não bebe outro leite a não ser o meu. Sim, ela continua mamando, mama muito e come muito bem. Não posso dizer que ela come todos os legumes, não come, mas sempre ofereço todos e às vezes ela come. É bem seletiva e um pouco desconfiada para experimentar, mas deixo ela livre para experimentar no tempo dela ou deixo para outra ocasião. E se você ficou ai se perguntando como eu iria ensinar bons modos para uma menina que passava comida até no cabelo, eu respondo: hoje ela come sozinha sentada em sua mesinha, sem sujar quase nada! A tendência é copiar os pais, se você não suja até o cabelo quando está comendo, não se preocupe que seu filho não terá esse hábito.

Dicas que considero importantes

  • Estejam atentas as fases de desenvolvimento da criança, elas podem alterar o ritmo de alimentação dependendo da fase que estiverem atravessando. Dentre as mais importantes eu destaco a crise dos três meses, ansiedade da separação por volta dos 8 meses e a crise dos 12 meses, fora as épocas em que os dentes estão nascendo. Então muita calma nessa hora, a criança pode querer comer ou mamar muito pouco, ou parar de comer e só querer mamar. O importante é entender que isso passa e que sua paciência nesse momento pode ser decisiva para o estabelecimento de bons hábitos alimentares no futuro.
  • Se precisar desmamar seu filho o faça de forma gentil, depois de no mínimo 6 meses de amamentação exclusiva e, se possível, fora das idades criticas (citei acima).
  • Se você amamenta seu filho não precisa introduzir leite e derivados até completar 12 meses. Se a amamentação foi interrompida procure o leite adequado para a idade e fuja dos compostos lácteos!
  • Açúcar é algo que você considera essencial porque você já  conhece. Seu bebê não sabe o que é açúcar e não sentirá falta num suco de maracujá, nem mesmo no suco de limão. Não importa o tipo de açúcar, se você adoça com açúcar mascavo ou qualquer outro você está acostumando seu filho ao paladar adocicado. Deixe ele perceber o real sabor das frutas, conhecer o doce natural que existe em todas elas e desenvolver suas preferências sem interferências.
  • A papinha feita em casa é melhor em milhões de aspectos, evite ao máximo papinhas industrializadas. Se não sabe cozinhar essa é uma boa oportunidade de aprender, e existem muitos blogs e sites ótimos que podem auxiliar nesse processo.
  • Não bater as papinhas no liquidificador e sempre que possível oferecer em pedaços u amaçado com garfo.
  • Exemplo é tudo, não adianta você dizer que não vai dar refrigerante para seu filho e tomar um litro de coca cola no almoço.  Como eu disse antes, as crianças copiam os pais, então se você deseja que seu filho tenha uma alimentação saudável, tenha você mesmo uma alimentação saudável.

Alguns links importantes

Sobre o porque de esperar até os seis meses para iniciar a introdução alimentar: http://maternarconsciente.blogspot.com.br/2011/07/seis-razoes-para-esperar-seis-meses.html

Sobre alguns mitos sobre amamentação: http://maternarconsciente.blogspot.com.br/2011/05/mitos-sobre-amamentacao.html

Sobre as curvas de crescimento: http://maternarconsciente.blogspot.com.br/2011/04/curvas-de-crescimento.html

blog de alimentação infantil: http://www.asdeliciasdodudu.com.br/

O livro está disponível em pdf neste link: http://rebeccademes.com/lecturas/mininonomecome.pdf – está em espanhol mas é de fácil compreensão.

Então boa sorte para você que está começando essa viagem! Volto a falar do assunto depois dando dicas de alimentação saudável.

 

beijos

 

 

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Desescolarizar-se – Relato da vivência com Ana Thomaz

Vivência com Ana Thomaz

Vivência com Ana Thomaz

Já comentei aqui que criamos um grupo em Lençóis – BA para discutir educação, maternidade, paternidade e tudo o que diz respeito a criação dos nossos filhos. O nome do grupo é Co-Criando em Lençóis e se tornou um espaço de discussão e aprendizado riquíssimo do qual eu me orgulho de fazer parte.

Nos nossos encontros estamos sempre buscando alternativas de educação numa cidade pequena e com poucas opções de escola. Pesquisamos e procuramos soluções. Pensamos em reabrir uma escola Waldorf, em criar uma escola sem pedagogia específica, em construir um centro de vivencias, uma escola livre e muitos pais pensam mesmo em desescolarização.

Enfim, são muitas ideias e muitas dúvidas. Então um dia eu assisti a uma entrevista com  Ana Thomaz em que ela descreve, lindamente, como ocorreu o processo de desescolarização em sua vida. Como ela tomou coragem para desescolarizar o filho que pedia por isso. Como ela resolveu bancar e assumir a responsabilidade por sua formação. Assisti àquele vídeo pela metade, pois a internet aqui não ajuda muito (terminei de assistir em outro momento), mas foi o tanto suficiente para entender que eu precisava ouvir mais de quem já vivia algo que para mim ainda é abstrato.

Como o universo sempre conspira a nosso favor, um amigo querido, membro do grupo, conhecia a Ana Thomaz, tinha contato com ela. Encontrei-o e perguntei se era possível conversar com ela sobre a possibilidade de vir até Lençóis. Ela respondeu rápido dizendo que estaria na Bahia em agosto, pois participaria de uma vivência em Salvador. Perfeito! Corremos atrás do espaço e de toda logística necessária a realização do evento e aguardamos ansiosos pelo dia de sua chegada.

Chegado o dia, me entreguei de cabeça, queria absorver tudo o que pudesse sobre desescolarização, algo que eu já defendia, por ter estudado, mas que me provocava ainda muitas dúvidas.

E é aqui que começa a história de verdade. Onde tudo começa a fazer sentido de fato.

Ela não veio ensinar nada, mas contar algo que aconteceu com ela de verdade. Ouvimos a história de uma família que encarou o desafio, enfrentou um problema, superou as dificuldades e continua fazendo isso todos os dias.

Eu leio sobre desescolarização desde que Maria Luiza nasceu e nada do que eu li me tocou tão profundamente, nem mesmo o blog que própria Ana escreve, que é maravilhoso. Mas ouvir o relato de vida e observar sua família foi um laboratório fantástico.

Através do seu relato, da sua experiência eu aprendi.

Aprendi que o processo de desescolarização começa antes de qualquer lugar em nós mesmos. Aprendi que escolarizada sou eu e eu preciso me desescolarizar. Preciso me desintoxicar do ego da formação acadêmica, da deformação provocada por um sistema que se constrói a base de ameaças. Aprendi que não basta querer ensinar o filho, nem  abandona-lo para que perceba sozinho o mundo. O importante mesmo é se construir diariamente diante da demanda apresentada por um esse ser livre chamado criança.

Sair da inércia é algo fundamental nesse processo. Colocar o corpo em movimento, se reconectar com seu corpo, sentir e mudar o que não está certo. Fazer uma limpeza na alma, buscar sua paixão. Ser a mudança que você quer para o mundo. Entender que nada está do lado de fora, está tudo dentro.

Invertendo a perspectiva dos valores pré-estabelecidos pela cultura escolarizada, pensando que o que está fora é reflexo do que está dentro, então eu preciso mudar o que está dentro para refletir fora o que eu gostaria de ver. Se eu quero um ambiente harmonioso para minha família eu preciso me harmonizar com tudo, encerrar os conflitos internos. Assumir que o que se apresenta faz parte de mim e se eu não gosto do que eu vejo então eu tenho que mudar isso em mim. Transformar o desgosto em ação criadora e criar uma nova realidade.

Exercitar a não reclamação, ver o bom, o justo que se apresenta em tudo que vivenciamos. Perceber que se algo me atinge negativamente eu preciso exercitar isso, transmutar essa energia ruim em energia boa, fazer o exercício diário de alto reconhecimento. Se eu me importo, se eu choro, se eu me estresso então o problema é meu, o outro apenas me mostra o que está dentro de mim e eu vejo em forma de sentimentos.

Aprendi que não precisamos mudar o mundo. Se lutarmos por um mundo melhor sem melhorar nossa casa, nosso eu, então estaremos falando para as paredes.

A desescolarização sob essa perspectiva se torna algo meu. Nós que já estamos inseridos num sistema e que já fomos moldados é que precisamos mudar internamente. Nossas crianças estão livres, são genuinamente livres como fomos um dia. Precisamos cuidar para que essa liberdade permaneça, para que o desejo nato de aprender nunca seja sufocado. Cuidar para que ela cresça inteira, como ela veio ao mundo, cuidar para que ela não seja vitima de ameaça, de qualquer tipo, para que isso não estagne seu desejo de aprender.

Aprendi que precisamos aprender com nossos filhos. A nossa desescolarização começa observando verdadeiramente essas crianças, aprendendo com eles como estar inteiros, de corpo e alma, numa brincadeira. Aprender a respeitar o tempo do outro e o nosso tempo. Aprender a confiar. Confiar que seu filho é biologicamente preparado para desejar o melhor para si e fazer desse desejo o melhor para o mundo ao redor dele.

Confiar. Essa é a palavra. Estar lá disponível para sanar as dúvidas, orientar quando solicitado ou quando for necessário, ser ouvido para todas as suas fantasias. Nunca desconfiar e temer. Ter a certeza irrevogável que já deu certo. Estamos aqui e fomos capazes de colocar seres no mundo então  é porque já deu certo. Confia e solta, que o coração desse ser vai conduzir para o melhor caminho.

Quando alguém tem oportunidade de ouvir seu desejo mais profundo ele tem coragem de colocar isso em prática da forma mais profunda e mais entusiasmada possível.

Essa experiência com  Ana Thomaz me fez ver isso. Seu filho tem um brilho no olhar, tem uma segurança no que faz que poucas pessoas demonstram. Foi encantador vê-lo brincar com o que ama fazer. A mágica que eu assisti ia além da habilidade em brincar com os objetos e com a expectativa do publico. A verdadeira mágica estava na segurança, na coragem, no brilho que ele demostrava.  Isso só é possível com liberdade.

Precisamos sair da inércia, reconectar com nosso corpo e nos comunicar com nosso eu verdadeiro para desenvolver essa confiança e confiar em nossos filhos. Não é fácil, mas já demos o primeiro passo. Estamos buscando e nos informando. Continuemos juntos, co-criando nossos filhos e a nós mesmos. Assim poderemos encontrar o melhor caminho para cada um sem esquecer que o melhor caminho para nossos filhos é a liberdade de criação.

Quero agradecer a todos os co-criadores por tornar possível a realização desse evento. Agradecer a Ana Thomaz e seus filhos por dedicar seu tempo para nos contar um pouco de suas experiências.

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Reflexões sobre a sociedade

Como já falei aqui, tenho um irmão que é como se fosse meu filho. Esse filho hoje tem 16 anos, um rapaz doce, lindo e pacifico. Hoje ele sofreu um assalto, foi ameaçado com uma arma. Não foi muito grave, mas foi um susto grande, tipo de coisa que não desejamos a ninguém, muito menos para um filho. Quando esse tipo de coisa acontece vários sentimentos afloram, nos revoltamos, nos questionamos, questionamos que tipo de sociedade estamos vivendo. O assaltante também era um jovem, pouco mais velho que meu irmão, talvez da mesma idade.

Durante o momento de revolta minha mãe falava sobre o absurdo que é essa violência, que a polícia tinha que prender mesmo…enfim, coisas que eu não concordo porque considero que existe um contexto por trás de tudo. Nessa conversa ela me questionou sobre os motivos pelos quais eu tinha pena do ladrão e eu só fui capaz de dizer evasivamente os motivos sociais, que já são bem fortes, mas que na conversa não foram suficientes para convencer ou sensibilizar sobre o real problema.

Veja: não se trata de defender o ato, quem comete crime deve responder por isso sem sombra de dúvida. O que eu queria dizer é que não adianta punir a ação, devemos pensar no contexto que leva ao aumento da criminalidade.

Fui colocar Maria para dormir e fiquei pensando nisso. Pensando nos problemas sociais que citei. Numa família desestruturada, em pais que estão sempre ausentes, em educação com palmada, surra, grito, humilhação. Pensei nas famílias que querem compensar a ausência dos pais com presentes e tudo o que o dinheiro pode comprar. Pensei ainda nos pais que não conseguem encontrar a medida entre amar e dar limites, orientar.

Pensei no apelo capitalista de comprar para ser feliz, comprar para ser aceito. A sociedade que não aceita as diferenças. A escola que valoriza quem se enquadra naquele padrão de aprendizado e exclui quem não se adapta. A TV que dita os padrões de beleza, de sucesso e de vida bem sucedida.

Uma sociedade marcada por uma cultura da vida fácil e prática, que não sabe esperar um macarrão com molho caseiro ficar pronto, faz um miojo em 3 minutos e tudo resolvido. Que não respeita o ritmo de cada um e tem uma pílula para cada problema. Uma sociedade que oferece cada vez mais distrações para que não tenhamos tempo de pensar no porque de tudo estar assim, tão caótico.

Uma sociedade em que a vida já começa com violência, com bebês arrancados da barriga das suas mães sem estarem realmente prontos, pois os médicos não podem perder tempo com parto normal. Uma sociedade que prega que você, mãezinha, precisa educar seu filho para ser independente assim que chega a casa: nada de colo, carinho e cheirinho de mãe, peito nem pensar dá logo leite artificial, e esse negócio de atender o choro, ele vai te manipular. Você precisa logo voltar à ativa, com o mesmo ritmo, com o mesmo corpo, tudo como era antes, como se nada tivesse acontecido.

E essa criança? Está na frente da TV assistindo coisas que não educam, ganhando presentes que não são importantes, sendo contaminada pela propaganda que dita o que você precisa ou deixa de precisar. Eles crescem, sem amor, sem afeto, sem colo, sem peito, sem pai nem mãe. Crescem sem respeito. São violentados desde o nascimento.

Esses jovens que crescem jogando videogames violentos, como conduzem essa energia? Para que serve um jogo onde é natural matar e ter porte de armas se não para naturalizar essa violência?

O que esses jovens têm a nos dar em troca? Como podem ser pacíficos? Como podem dizer não a tudo isso?

Tenho pena e tenho medo. Porque o resultado de todas essas práticas está na nossa cara, já dá para ver que está errado essa vida levada dessa forma, mas muitos parecem estar cegos. Então acham melhor bater em seus filhos para que eles não apanhem da polícia. Acham melhor remediar, tapar o sol com a peneira, proferir discursos de ódio e fingir que isso resolve alguma coisa.

Hoje, mais do que nunca, entendi a frase dita por Michel Odent: “Para mudar o mundo é necessário, antes, mudar a forma de nascer”. Entendi que a partir da mudança na forma de nascer poderemos produzir as outras mudanças tão necessárias em nossa sociedade. Entendi que a luta por um nascimento respeitoso protege a sociedade. Porque somos bicho e nossas ações e reações são comandadas pelo nosso sistema endócrino, e quando temos ocitocina correndo nas veias não deixamos nosso bebê chorar sem consolo, queremos nosso bebê no colo, ficamos perto e damos amor, presença, aprendemos a conversar, a nos entender e fortalecemos os laços da família. É essa a mudança que precisamos e a luta por um nascimento com amor deve atingir todas as camadas da sociedade. Mudando isso, todas as outras mudanças serão possíveis.

O aumento da criminalidade entre jovens é só a ponta do iceberg, tem muito mais por trás do contexto que se apresenta.

E acredito que tudo começa lá, na recepção desse mundo!

 

 

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Voltando a ativa!

Quanto tempo. Sempre penso em escrever, tantas e tantas coisas passam por minha cabeça todos os dias, mas sempre tem alguma coisa na frente e acabo deixando para depois!

Dessa síndrome do “deixa para depois” eu quero me livrar. Por mil motivos. Por que acredito que eu tenha muito a dizer, por que eu quero fazer parte desse movimento de mudança partilhando minhas experiências, por que quero deixar um registro para minha filha ler e entender como foi o processo de maternar para mim, como foi os primeiros anos de vida dela, como foi ver crescer uma criança e crescer junto com ela.

Esses últimos meses foram de muitas mudanças na nossa vida. A ultima vez que escrevi você acabava de completar 12 meses, estava dando seus primeiros passos, interagindo melhor com outras pessoas, começando a falar mais palavras.

E os cinco meses que seguiram depois da ultima postagem foi incrível. Não tem como comparar aquele bebê com esse de hoje. Temos uma pequena andante e falante. Repetindo todas as palavras, se comunicando, contando suas histórias! Pode parecer caduquice de mãe coruja, mas mesmo que ainda não forme frases consegue contar com algumas palavras e gestos alguma vivência que marcou.

E assim se esmera em gestos quando perguntamos: Como foi filha que o papai expulsou o jegue? E então prontamente responde gesticulando: Sai “dégue”, sai, sai! E mostra onde ocorreu o fato. Fala sobre a amiguinha que apertou sua bochecha com força: Neném ahmmmm!!! e aperta a própria bochecha.

Corre a casa, espalha brinquedos, dança, canta. Não tem um dia que não rimos das suas travessuras. Aprendeu a falar “não” quando não quer e “qué” quando quer algo. Na dúvida diz não para tudo! Quando quer mamar diz: Peta qué!

Com 16 meses você demostra muita tranquilidade quando está com outras crianças. Raramente entra na disputa por algo, demonstra empatia e consegue até dividir algumas coisas. Em grupos maiores está sempre observando curiosa cada movimento, tenta acompanhar com os olhos os movimentos dos outros. E brinca, se diverte e quase não lembra da mamãe!

Antes disso passou por uma fase complicada. Mamãe vai contar aqui com mais detalhes depois. Foi entre 13 e 15 meses. Muito choro, muita energia, muita vontade de se comunicar e era difícil ser entendida, a mamãe e o papai não conseguia entender algumas coisas, e você não conseguia explicar e isso era estressante para nós três. Mas essa fase foi muito importante para estabelecer a comunicação como temos hoje, e que vai melhorando a cada dia.

Como tudo passa, agora estamos vivendo a que eu considero uma das suas melhores fases. Você está sempre muito ativa e exige nossa presença nas suas brincadeiras, quer atividade, então temos que ler, dançar, pular, correr e passear!! Mas, por conseguir se comunicar melhor essas necessidades, demostra maior tranquilidade e segurança o que a deixa mais feliz.

Então, a mamãe e o papai aprendemos mais sobre você, sobre o mundo infantil, sobre como observar e entender alguém tão pequeno. Pensamos em contar isso para outros pais. Fomos além, começamos a pensar como será sua educação, com quem você irá conviver, observamos suas necessidades de interação com outras crianças. E então, finalmente, tomamos coragem para conversar isso com outros pais.

Nasce então uma nova família, uma comunidade, um grupo de pessoas que pensam nas necessidades dos filhos e pensam em soluções para atender a essas necessidades. Um grupo de pessoas que se unem para juntos criarem seus filhos. Nasce a partir daí o Co-Criando em Lençóis.

Bom, mas essa história eu conto depois para você minha boneca!!!

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12 meses – Nosso primeiro ano de vida!

Este mês pensei no parto muitas vezes por longos momentos. Revivi cada minuto, passei o mês te parindo de novo e percebi que renasci naquele dia também. Olho você e vendo essa menininha linda e sapeca que você é hoje me impressiono com a nova pessoa que sou hoje e também com a quantidade de acontecimentos que cabem num ano.

Esse ano foi intenso, sua chegada revolucionou minha vida de uma forma que eu jamais pude imaginar. E não foram apenas as mudanças normais da adaptação à vida de mãe. Muitas coisas vieram somadas a isso, foram mudanças físicas, geográficas e de conceitos preconcebidos. Tudo começou quando grávida pesquisei sobre parto e me deparei com um mundo de coisas sobre parto humanizado, parto domiciliar e sobre como os partos não deveriam ser. Isso me fez buscar a melhor alternativa para seu nascimento que possibilitasse uma chegada respeitosa e com muito amor. Conseguimos chegar ao CPN, e lá você nasceu. Cercada de muita luz, pois senti que todo o trabalho de parto foi conduzido não só por profissionais maravilhosos, mas também por guias espirituais iluminados. No ambiente em que você nasceu sua avó Ana estava lendo a Sutra Sagrada e nós estávamos na Mansão do Caminho – centro espírita criado por Divaldo Franco.

Quando voltamos para casa começamos a derrubar os velhos paradigmas. O senso comum, dizia-me que não era para atender prontamente seu choro, que não era para te viciar no colo, que não era para você dormir na cama com papai e mamãe. Não durou nada todo esse vasto conhecimento. Eu me desesperava toda vez que você chorava e nunca deixei de atender prontamente, era mais forte que eu. Então fui atrás dos porquês desse sentimento e descobri que o que eu estava sentindo era meu instinto, meus hormônios gritando para proteger meu bebê. Então descobri que eu tinha acreditado no conto da carochinha e que bebê nenhum fica viciado em colo, que colo é o lugar do bebê, e que choro de bebê é comunicação e nunca devemos deixar quem amamos falando sozinho. E a melhor de todas as descobertas foi que dormindo comigo tanto eu quanto você dormia melhor e muito mais felizes. E assim seguimos grudadinhas. O primeiro mês foi o mais difícil, estávamos nos adaptando, tinham noites em que você não dormia, eu e papai nos revezávamos na tarefa de tentar fazer você dormir. O segundo mês melhorou, peguei a “manha” e comecei entender melhor seus sinais. Muito banho de ofurô, sling e amor.

Com quatro meses tinha que decidir se ficaria em casa ou se voltaria a trabalhar, foi difícil, pois precisava do dinheiro. Mas trabalhar, no final das contas iria sair muito caro. Nossa saúde era mais importante. Eu digo nossa porque tenho certeza que eu teria ficado doente com uma rotina de te ver só um pouco a noite. Não pelo ritmo, mas pela saudade e por te ver sofrer. Não dava para arriscar sua saúde e felicidade. Optei por sair do trabalho. E foi a melhor coisa que eu fiz.

Então resolvemos mudar para o interior, viver uma vida mais leve e mais calma. Escolhemos Lençóis – BA. Uma cidade linda, turística e cheia de oportunidades. Resolvemos começar nossa vida aqui e viemos. Você chegou com quatro meses e meio. Nós passamos pelo período de adaptação, de conhecer e de pensar se era aqui mesmo o lugar. Tive momentos de altos e baixos, de achar que não era meu lugar. Mas hoje acredito que foi uma ótima escolha. As oportunidades foram aparecendo e continuam chegando. Agora você tem um enorme quintal para brincar e uma árvore para colocar um balanço quando você estiver maior. Acho que aqui você terá uma infância feliz.

Aprendi muita coisa esse ano. Hoje me alimento melhor e não acredito mais em uma grande empresa de alimentos que vende fórmula para substituir leite materno e papinha industrializada dizendo para a mãe aproveitar o tempo com o filho. Escolhi não apresentar o açúcar, os industrializados e o leite de vaca para você tão cedo na sua vida. Aprendo todos os dias a ler seus sinais, entender cada choro, estar com você e não no mundo a parte chamado preocupação. Muitas vezes você precisa me resgatar desse mundo e sempre que faz isso é com um enorme sorriso me convidando, irresistivelmente, a viver cada momento intensamente ao seu lado.

Hoje eu dou muito mais risadas  e meu jeito carrancudo quando alguma coisa me preocupa tem, cada vez mais, dado espaço para o sorriso e a alegria de te ver crescer. Eu sempre fui contra palmadas e hoje eu sou contra também aos gritos. Nossa relação está se construindo cada dia mais na base do dialogo, embora você ainda não compreenda tudo o que eu digo. Mas é ai que você me surpreende e parece entender coisas complexas para alguém da sua idade. Então confirmo, realmente está dando certo, escolhi o melhor caminho para nossa família: o amor.

Quando vem a dúvida corro para a internet, pedir ajuda para essas amigas que eu nunca vi. Mulheres que, como eu, também tem uma história de vida transformada com a maternidade, mulheres cheias de experiências que me inspiram, ensina e ajudam. Depois de pesquisar e ler revejo, rearrumo, mudo e acrescento meus conceitos. Assim trilho esse caminho fantástico da maternidade.

Mas é você quem me faz assim. Se fosse outro bebê eu seria outra mãe. E é isso que me deixa mais encantada com tudo, a nossa perfeita simbiose. Desde fevereiro de 2011, você se fez hospede em minha vida, me trazendo toda sorte de felicidade que um ser pode experimentar neste mundo. Desde então eu vi tudo mudar, eu chorei, eu ri, eu me livrei de mágoas, me desfiz de preconceitos, limpei as lentes através da qual eu vejo a vida. Você saiu de mim, num parto que fez emergir as minhas mais profundas sombras, que me fez uma nova pessoa no sentido de que agora eu acredito de verdade em mim mesma, no meu potencial como mulher e mãe. Tornei-me o que sou hoje e sei que essa simbiose ainda vai trazer muitas surpresas e mudanças. E hoje, um ano depois do seu nascimento, olho para trás, lembro-me de quando não tinha filhos e me sinto tão longe daquela pessoa. Vejo que o que eu tanto buscava aquele tempo, o que me fazia me sentir incompleta e muitas vezes sem rumo na vida, hoje dorme nos meus braços e se alimenta do meu leite.

Obrigada filha por transformar minha vida, por deixar ela mais alegre, por dar um sentido. Obrigada por me permitir viver essa experiência de ser mãe, por ter vindo me ensinar tantas coisas.  Obrigada por me escolher, obrigada por estar aqui sorrindo todos os dias. Obrigada, infinitamente, muito obrigada!

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