O parto – parte III

A médica veio fazer o toque novamente, a dilatação estava de quase 10cm, faltava muito pouco para ter uma dilatação completa. A essa altura todas as contrações era de fazer força. Porém eu não conseguia fazer a força necessária, mesmo me esforçando ao máximo. A médica me orientava a respirar e fazer força como se fosse fazer cocô, mas as contrações estavam mais leves do que deveria naquele momento. Então a médica iniciou uma massagem no colo do útero para que a dilatação se completasse mais rápido. Quando a contração vinha colocava força e ela massageava. O colo foi abrindo, mas as contrações estavam fracas, então a médica teve que intervir me colocando no oxigênio e no  soro com  glicose e ocitocina para que eu recuperasse o fôlego e normalizasse o ritmo das contrações.

Eu não queria o soro, no momento que a enfermeira veio aplicar interrompi três vezes por conta das contrações, queria tentar continuar sem o soro e recuperar minhas forças. Mas realmente estava muito cansada e a médica insistiu. Assim que o soro foi colocado Joaquim me aconselhou voltar para a posição de quatro, pois nessa posição meu parto tinha evoluído melhor. Enquanto mudava de posição pude sentir meu corpo pesado, a exaustão tinha tomado conta de mim. Então eu respirei bem fundo e chamei por minha filha em voz alta, como que em oração. Disse para ela vir que eu estava esperando e que a amava muito.

Nesse momento senti uma força maior, fiquei de quatro, ouvi a médica dizer para colocar o soro bem fraco, mas a enfermeira queria que aumentasse, pois a posição que eu estava com a mão durante as contrações não deixava o soro passar. Achei isso ótimo, pois teria menos influência da ocitocina sintética. Mentalizei que seria aquela hora, que minha filha iria nascer com a força que eu tinha dentro de mim. Afirmei para mim mesma: Minha filha vai nascer agora!  A contração que se seguiu foi ainda mais forte e  senti a cabeça dela! A médica queria continuar com a massagem no colo do útero e me pedia para deixar fazer o toque. Falei que estava sentindo minha filha vindo, ela queria conferir, mas não deu tempo, outra forte contração e ouvi Joaquim falar: Está saindo! Continuei fazendo força e a cabeça saiu. Respirei fundo e fiz mais uma força para sair o corpo até a cintura e outra para expulsá-la completamente.

Ouvia as vozes alegres anunciando a chegada da minha filha. Comecei a chorar e fiquei imóvel na posição que eu estava, agradecendo a Deus por aquela benção. Ouvi pela primeira vez o gemidinho dela, ela não chorou ao nascer, olhei para trás e vi a equipe dando os primeiros cuidados, limpando o rostinho para poder me entregar. Me virei e a médica colocou ela sobre mim. Indescritível a sensação de tê-la em meus braços, ela ficou paradinha me olhando. Eu chorava e chamava minha mãe para ver como era linda minha filha.

Joaquim olhava admirado, logo a médica ofereceu a tesoura para ele cortar o cordão. Ele teria aparado a filha se o parto tivesse sido na água e se ela não tivesse nascido com uma circular de cordão no pescoço (a danada se enrolou durante o trabalho de parto). Não foi possível o parto na água, pois a banheira não atingiu a temperatura certa a tempo.

Maria Luiza veio ao mundo ás 3:09 da madrugada do dia 08 de dezembro. Nesse dia nascia não só uma criança, mas também uma nova mulher e um novo homem. Há quem diga que o parto foi demorado demais, minha mãe sofria por me ver sofrer. Talvez para quem estivesse assistindo todo processo pareceu sofrido, mas eu afirmo com pureza de alma que não houve sofrimento! A dor era forte, às vezes chegava perto do limite suportável, mas a cada momento que ela vinha mais forte eu descobria que era capaz de aguentar. Assim, a cada contração eu me sentia cada vez mais mulher. Não quis parar em nenhum momento, não quis menos dor, eu queria sim que ela viesse logo para estar comigo o mais rápido possível.

A descrição da dor do parto jamais vai ser fiel a realidade. Não existe no mundo dor nenhuma que seja tão grande e que proporcione tanto prazer, tanta felicidade. Eu me entreguei nesse processo, desejei cada contração, pari um filho e uma mulher com uma nova visão sobre a vida. Eu hoje descrevo o parto como um ritual de passagem, a dor faz parte de todo ritual de passagem. Nesse momento deixei de ser filha, menina, frágil e me tornei mãe! Agora eu sei o real peso que esse título tem e como é natural e espontâneo ser mãe. Quando olhamos pela primeira vez o bebê que nosso corpo carregou durante 9 meses e acabou de expulsar para nossos braços, deixamos de ser quem éramos a horas atrás e passamos a ser um novo ser, carregado das experiências do passado, mas com força e ânimo renovados pela chegada da cria.

Não existe prazer maior do que esse na vida. Difícil se sentir tão plenamente feliz como nos sentimos  nesse momento. Depois que ela saiu acabou o cansaço, acabou a dor. Sobre a dor eu só sei dizer que foi grande não posso descrever porque não lembro. Quando o bebê nasce o resto perde a importância, o tamanho da dor se torna insignificante e se era para tê-la em meus braços eu sentiria dez vezes mais dores.

Com certeza essa foi à experiência mais emocionante, mais prazerosa e mais iluminadora que eu tive na minha vida. Parir é lindo, principalmente quando deixamos nosso corpo trabalhar livremente. Durante todo o processo eu estava atenta aos acontecimentos, mas fechava os olhos para ficar comigo, me concentrar na dor e ajudar a minha filha a nascer. O mais importante é se entregar ao prazer de dar a luz.

Depois do parto só consegui dormir quase meio-dia.  Eu e Joaquim não parávamos de admirar nossa princesa e de  relembrar os momentos que acabávamos de viver. Até hoje as imagens daqueles momentos surgem nas nossas memórias espontaneamente e ficamos horas conversando sobre o que aconteceu.

Tudo isso foi possível porque tivemos muita sorte de encontrar o lugar perfeito. O Centro de Parto Normal conta com uma equipe excelente e infraestrutura irretocável. No CPN podemos contar com o tratamento humanizado desde a recepção. A mulher que chega em trabalho de parto é tratada com carinho por toda a equipe médica, que encoraja, ajuda e assiste com total competência e responsabilidade.  Tudo isso é oferecido pelo Sistema Único de Saúde e é mantido por doações. Um trabalho fantástico que eu faço questão de divulgar e pelo qual tenho orgulho de ter sido beneficiada.

Agradeço a Deus, por ter colocado em meu caminho as pessoas certas no momento certo, pois todos que estiveram presentes teve fundamental importância no desfecho feliz que tivemos.  A Dr. Marilena que me acompanhou durante a gestação e me apoiou na decisão de parir no CPN. Sua atenção e paciência nos últimos dias foram fundamentais. Agradeço a equipe que me recebeu no CPN, Dr. Maiana e as enfermeiras Ana e Djean, carinho, atenção e paciência foram fundamentais nesse momento e elas foram geniais nisso. A minha mãe peço, acima de tudo, perdão! Ela realmente sofreu me vendo parir, mas agradeço, pois se fui forte é porque ela me ensinou a ser assim. A minha sogra que segurou as pontas com fé, leu a sutra durante todo o tempo e ainda foi precisa ao fazer o vídeo do parto.

Ao papai mais lindo do mundo, te admiro ainda mais depois de tudo. Sempre que me olhava durante o parto me transmitia paz, segurança e certeza de que tudo ia dar certo. Soube equilibrar sensibilidade e força como ninguém e foi meu companheiro incansável durante todo o tempo.

A todos que de longe torceram, rezaram e mandaram energia positiva…

Um grande beijo!

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