Postagem Coletiva: VIOLÊNCIA NO PARTO – A VOZ DAS BRASILEIRAS

Quando engravidei fui à busca de informações sobre parto na internet e um mundo novo se revelou para mim. Já tinha certeza que queria parto normal, mas não sabia dos procedimentos desnecessários, do desrespeito, da falta de afeto no tratamento hospitalar com mãe e bebê. Foi nessa ocasião que conheci uma realidade que foge a maioria das pessoas, uma verdade que só quem pode ver é quem está dentro de uma maternidade a caminho de um parto.  Conhecer isso foi assustador e ao mesmo tempo revelador.

Através dessa pesquisa conheci o parto natural e humanizado. Comecei a busca por um obstetra humanista, coisa rara em Salvador. Encontrei pessoas maravilhosas que fazem trabalhos fantásticos, conheci pessoas fantásticas que trabalham pela humanização e respeito ao nascimento. Pessoas que acreditam no poder e força da mulher.

Minha filha nasceu de forma humanizada e respeitosa numa Casa de Parto que atende pelo SUS. Lá fui acolhida e amparada, todos os meus desejos foram respeitados, fui acompanhada o tempo todo pelo meu marido, minha mãe e minha sogra. Recebi apoio e carinho no momento mais importante da minha vida e nunca vou esquecer. Neste lugar também minha mãe foi acolhida, pois ela não estava preparada para ver a filha parir.

Minha mãe foi vitima dessa violência quando eu nasci. Um erro médico quase resultou em minha morte. A plantonista nessa ocasião duvidou da idade gestacional que minha mãe havia informado (8 meses) e induziu o parto estourando a bolsa. Horas depois outro plantonista constata que o bebê estava em sofrimento e que era necessário uma cesária com urgência. Quando nasci levei vários tapas para chorar e fui colocada no balão de oxigênio enquanto minha mãe chorava e gritava que tinham matado o bebê dela.

Minha mãe ao me ver em trabalho de parto por 12 horas achou necessário intervirem. Para ela o soro poderia me ajudar. Ela considerou absurdo não terem feito nada por mim.  Ela queria acabar com minha dor e temia por sua neta que passou 4 horas dentro da barriga depois de estourada a bolsa. Ela reagiu dessa forma, pois apesar da história dela ser diferente da minha, era a história dela que ela tinha como referência. Tinha como referência também a história de parto de diversas amigas, irmãs e cunhadas que passaram por intervenções e por cesarianas desnecessárias, mas no final todos estavam vivos.

Quando pergunto para mulheres se no seu parto foi cortada (sofreram episiotomia), se colocaram soro entre outras coisas, a maioria responde que sim. E se eu pergunto como foi essa experiência a maioria me dá uma resposta evasiva. As vezes sai um “foi bom” inconsistente que denuncia o desconforto dessa lembrança. Essas mulheres muitas vezes não sabem que foram vitimas de violência, na verdade elas nem imaginam. Todas elas acreditam, assim como minha mãe, que o que elas passaram foi necessário e seguem em frente sem pensar muito no que aconteceu, mesmo porque relembrar dói.

A violência tem terreno fértil para se enraizar, pois as mulheres ignoram sua existência e os meios pelos quais ela ocorre.  Acreditam que todas essas intervenções são necessárias, apesar de sofrerem com isso.  No final do meu parto, quando a médica estava suturando a pequena laceração que tive, minha mãe me disse: “Tá vendo, teve que levar ponto do mesmo jeito, se tivesse cortado teria sido mais rápido.”

A violência obstétrica acontece de forma velada e permeia todas as classes sociais. A diferença é como ela é cometida.

Se a mulher tem assistência particular quase sempre é induzia a uma cesária alegando algum “defeito” no seu corpo ou no bebê que impede o parto vaginal. Quando a mulher depende da assistência publica essa realidade pode ficar ainda pior. No SUS o parto normal é prioridade e essas mulheres sofrem todo tipo de indução para parir o mais rápido possível.  Sofrem não só com as diversas intervenções, mas também com a humilhação e total abandono, pois muitas vezes, nem o direito de ter um acompanhante (que é garantido por lei) é respeitado. Nessas mulheres ficam as marcas físicas e emocionais de um tratamento desumano no momento em que deveriam ser acolhidas.

Quantas mulheres passam pelo momento mais especial de suas vidas de forma traumatizante? Quantas já se questionaram silenciosamente o porquê de estarem se sentindo tristes mesmo tendo em seus braços o grande amor de suas vidas? Quantas transmitem para outras mulheres do seu convívio os horrores vividos no parto como sendo algo do qual nenhuma poderá escapar, um mal necessário?

Essas mulheres precisam ter voz, precisam ser ouvidas para que essa realidade mude e outras mulheres não precisem passar por isso. A mulher brasileira precisa recuperar o protagonismo, lutar por melhores condições de assistência ao parto. Para isso precisamos informar e mostrar que existe outro caminho.

Desrespeito e violência não combinam com nascimento. Quem passou por isso precisa ter voz.

Foi pensando nisso que um grupo de mulheres começou a organizar uma série de ações via internet que visam informar e denunciar esse tipo de violência. Como resultado dessas ações houve duas Blogagens Coletivas que envolveram mais de 100 blogs, além das marchas que mobilizaram mulheres no Brasil inteiro em prol do parto domiciliar e humanização do parto. Agora uma nova mobilização convida as mulheres que sofreram desrespeito no nascimento de seus filhos a contar esse momento através de um vídeo.

Essa é uma oportunidade de fazer essa violência sair dos corredores das maternidades e ganhar visibilidade. Vamos promover uma discussão e levar informação ás mulheres que permanecem acreditando que isso é apenas um procedimento, um mal necessário.

Divulgue, convide outras mulheres a participar, mande seu vídeo contando sua história.

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