Reflexões sobre a sociedade

Como já falei aqui, tenho um irmão que é como se fosse meu filho. Esse filho hoje tem 16 anos, um rapaz doce, lindo e pacifico. Hoje ele sofreu um assalto, foi ameaçado com uma arma. Não foi muito grave, mas foi um susto grande, tipo de coisa que não desejamos a ninguém, muito menos para um filho. Quando esse tipo de coisa acontece vários sentimentos afloram, nos revoltamos, nos questionamos, questionamos que tipo de sociedade estamos vivendo. O assaltante também era um jovem, pouco mais velho que meu irmão, talvez da mesma idade.

Durante o momento de revolta minha mãe falava sobre o absurdo que é essa violência, que a polícia tinha que prender mesmo…enfim, coisas que eu não concordo porque considero que existe um contexto por trás de tudo. Nessa conversa ela me questionou sobre os motivos pelos quais eu tinha pena do ladrão e eu só fui capaz de dizer evasivamente os motivos sociais, que já são bem fortes, mas que na conversa não foram suficientes para convencer ou sensibilizar sobre o real problema.

Veja: não se trata de defender o ato, quem comete crime deve responder por isso sem sombra de dúvida. O que eu queria dizer é que não adianta punir a ação, devemos pensar no contexto que leva ao aumento da criminalidade.

Fui colocar Maria para dormir e fiquei pensando nisso. Pensando nos problemas sociais que citei. Numa família desestruturada, em pais que estão sempre ausentes, em educação com palmada, surra, grito, humilhação. Pensei nas famílias que querem compensar a ausência dos pais com presentes e tudo o que o dinheiro pode comprar. Pensei ainda nos pais que não conseguem encontrar a medida entre amar e dar limites, orientar.

Pensei no apelo capitalista de comprar para ser feliz, comprar para ser aceito. A sociedade que não aceita as diferenças. A escola que valoriza quem se enquadra naquele padrão de aprendizado e exclui quem não se adapta. A TV que dita os padrões de beleza, de sucesso e de vida bem sucedida.

Uma sociedade marcada por uma cultura da vida fácil e prática, que não sabe esperar um macarrão com molho caseiro ficar pronto, faz um miojo em 3 minutos e tudo resolvido. Que não respeita o ritmo de cada um e tem uma pílula para cada problema. Uma sociedade que oferece cada vez mais distrações para que não tenhamos tempo de pensar no porque de tudo estar assim, tão caótico.

Uma sociedade em que a vida já começa com violência, com bebês arrancados da barriga das suas mães sem estarem realmente prontos, pois os médicos não podem perder tempo com parto normal. Uma sociedade que prega que você, mãezinha, precisa educar seu filho para ser independente assim que chega a casa: nada de colo, carinho e cheirinho de mãe, peito nem pensar dá logo leite artificial, e esse negócio de atender o choro, ele vai te manipular. Você precisa logo voltar à ativa, com o mesmo ritmo, com o mesmo corpo, tudo como era antes, como se nada tivesse acontecido.

E essa criança? Está na frente da TV assistindo coisas que não educam, ganhando presentes que não são importantes, sendo contaminada pela propaganda que dita o que você precisa ou deixa de precisar. Eles crescem, sem amor, sem afeto, sem colo, sem peito, sem pai nem mãe. Crescem sem respeito. São violentados desde o nascimento.

Esses jovens que crescem jogando videogames violentos, como conduzem essa energia? Para que serve um jogo onde é natural matar e ter porte de armas se não para naturalizar essa violência?

O que esses jovens têm a nos dar em troca? Como podem ser pacíficos? Como podem dizer não a tudo isso?

Tenho pena e tenho medo. Porque o resultado de todas essas práticas está na nossa cara, já dá para ver que está errado essa vida levada dessa forma, mas muitos parecem estar cegos. Então acham melhor bater em seus filhos para que eles não apanhem da polícia. Acham melhor remediar, tapar o sol com a peneira, proferir discursos de ódio e fingir que isso resolve alguma coisa.

Hoje, mais do que nunca, entendi a frase dita por Michel Odent: “Para mudar o mundo é necessário, antes, mudar a forma de nascer”. Entendi que a partir da mudança na forma de nascer poderemos produzir as outras mudanças tão necessárias em nossa sociedade. Entendi que a luta por um nascimento respeitoso protege a sociedade. Porque somos bicho e nossas ações e reações são comandadas pelo nosso sistema endócrino, e quando temos ocitocina correndo nas veias não deixamos nosso bebê chorar sem consolo, queremos nosso bebê no colo, ficamos perto e damos amor, presença, aprendemos a conversar, a nos entender e fortalecemos os laços da família. É essa a mudança que precisamos e a luta por um nascimento com amor deve atingir todas as camadas da sociedade. Mudando isso, todas as outras mudanças serão possíveis.

O aumento da criminalidade entre jovens é só a ponta do iceberg, tem muito mais por trás do contexto que se apresenta.

E acredito que tudo começa lá, na recepção desse mundo!

 

 

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Uma resposta a Reflexões sobre a sociedade

  1. Muito bom e verdadeiro seu texto Débora! Tudo faz sentido sim, nada está separado, é que aprendemos a ver as coisas separadamente, é cada um no seu quadrado né? e os conhecimentos estão separados também. tá tudo separado, “ou a gente se raoni ou a gente se extingue”. ou a gente junta tudo pra montar o quebra-cabeça, ou nunca vamos entender mesmo porque terá peças faltando ou peças que não se encaixam. E tá tudo tão banalizado já, que para muitos este papo de “parto humanizado” é coisa de gente que não tem o que fazer e blá. Mas se pararmos um pouquinho só, e nos desfazer de algumas verdades e preconceitos, veremos que faz totalmente sentido, como vc bem expôs aqui. e é por isso que é importante a história, entender o porque tudo isso. Entender de onde vem nossas escolhas e verdades.

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