Desescolarizar-se – Relato da vivência com Ana Thomaz

Vivência com Ana Thomaz

Vivência com Ana Thomaz

Já comentei aqui que criamos um grupo em Lençóis – BA para discutir educação, maternidade, paternidade e tudo o que diz respeito a criação dos nossos filhos. O nome do grupo é Co-Criando em Lençóis e se tornou um espaço de discussão e aprendizado riquíssimo do qual eu me orgulho de fazer parte.

Nos nossos encontros estamos sempre buscando alternativas de educação numa cidade pequena e com poucas opções de escola. Pesquisamos e procuramos soluções. Pensamos em reabrir uma escola Waldorf, em criar uma escola sem pedagogia específica, em construir um centro de vivencias, uma escola livre e muitos pais pensam mesmo em desescolarização.

Enfim, são muitas ideias e muitas dúvidas. Então um dia eu assisti a uma entrevista com  Ana Thomaz em que ela descreve, lindamente, como ocorreu o processo de desescolarização em sua vida. Como ela tomou coragem para desescolarizar o filho que pedia por isso. Como ela resolveu bancar e assumir a responsabilidade por sua formação. Assisti àquele vídeo pela metade, pois a internet aqui não ajuda muito (terminei de assistir em outro momento), mas foi o tanto suficiente para entender que eu precisava ouvir mais de quem já vivia algo que para mim ainda é abstrato.

Como o universo sempre conspira a nosso favor, um amigo querido, membro do grupo, conhecia a Ana Thomaz, tinha contato com ela. Encontrei-o e perguntei se era possível conversar com ela sobre a possibilidade de vir até Lençóis. Ela respondeu rápido dizendo que estaria na Bahia em agosto, pois participaria de uma vivência em Salvador. Perfeito! Corremos atrás do espaço e de toda logística necessária a realização do evento e aguardamos ansiosos pelo dia de sua chegada.

Chegado o dia, me entreguei de cabeça, queria absorver tudo o que pudesse sobre desescolarização, algo que eu já defendia, por ter estudado, mas que me provocava ainda muitas dúvidas.

E é aqui que começa a história de verdade. Onde tudo começa a fazer sentido de fato.

Ela não veio ensinar nada, mas contar algo que aconteceu com ela de verdade. Ouvimos a história de uma família que encarou o desafio, enfrentou um problema, superou as dificuldades e continua fazendo isso todos os dias.

Eu leio sobre desescolarização desde que Maria Luiza nasceu e nada do que eu li me tocou tão profundamente, nem mesmo o blog que própria Ana escreve, que é maravilhoso. Mas ouvir o relato de vida e observar sua família foi um laboratório fantástico.

Através do seu relato, da sua experiência eu aprendi.

Aprendi que o processo de desescolarização começa antes de qualquer lugar em nós mesmos. Aprendi que escolarizada sou eu e eu preciso me desescolarizar. Preciso me desintoxicar do ego da formação acadêmica, da deformação provocada por um sistema que se constrói a base de ameaças. Aprendi que não basta querer ensinar o filho, nem  abandona-lo para que perceba sozinho o mundo. O importante mesmo é se construir diariamente diante da demanda apresentada por um esse ser livre chamado criança.

Sair da inércia é algo fundamental nesse processo. Colocar o corpo em movimento, se reconectar com seu corpo, sentir e mudar o que não está certo. Fazer uma limpeza na alma, buscar sua paixão. Ser a mudança que você quer para o mundo. Entender que nada está do lado de fora, está tudo dentro.

Invertendo a perspectiva dos valores pré-estabelecidos pela cultura escolarizada, pensando que o que está fora é reflexo do que está dentro, então eu preciso mudar o que está dentro para refletir fora o que eu gostaria de ver. Se eu quero um ambiente harmonioso para minha família eu preciso me harmonizar com tudo, encerrar os conflitos internos. Assumir que o que se apresenta faz parte de mim e se eu não gosto do que eu vejo então eu tenho que mudar isso em mim. Transformar o desgosto em ação criadora e criar uma nova realidade.

Exercitar a não reclamação, ver o bom, o justo que se apresenta em tudo que vivenciamos. Perceber que se algo me atinge negativamente eu preciso exercitar isso, transmutar essa energia ruim em energia boa, fazer o exercício diário de alto reconhecimento. Se eu me importo, se eu choro, se eu me estresso então o problema é meu, o outro apenas me mostra o que está dentro de mim e eu vejo em forma de sentimentos.

Aprendi que não precisamos mudar o mundo. Se lutarmos por um mundo melhor sem melhorar nossa casa, nosso eu, então estaremos falando para as paredes.

A desescolarização sob essa perspectiva se torna algo meu. Nós que já estamos inseridos num sistema e que já fomos moldados é que precisamos mudar internamente. Nossas crianças estão livres, são genuinamente livres como fomos um dia. Precisamos cuidar para que essa liberdade permaneça, para que o desejo nato de aprender nunca seja sufocado. Cuidar para que ela cresça inteira, como ela veio ao mundo, cuidar para que ela não seja vitima de ameaça, de qualquer tipo, para que isso não estagne seu desejo de aprender.

Aprendi que precisamos aprender com nossos filhos. A nossa desescolarização começa observando verdadeiramente essas crianças, aprendendo com eles como estar inteiros, de corpo e alma, numa brincadeira. Aprender a respeitar o tempo do outro e o nosso tempo. Aprender a confiar. Confiar que seu filho é biologicamente preparado para desejar o melhor para si e fazer desse desejo o melhor para o mundo ao redor dele.

Confiar. Essa é a palavra. Estar lá disponível para sanar as dúvidas, orientar quando solicitado ou quando for necessário, ser ouvido para todas as suas fantasias. Nunca desconfiar e temer. Ter a certeza irrevogável que já deu certo. Estamos aqui e fomos capazes de colocar seres no mundo então  é porque já deu certo. Confia e solta, que o coração desse ser vai conduzir para o melhor caminho.

Quando alguém tem oportunidade de ouvir seu desejo mais profundo ele tem coragem de colocar isso em prática da forma mais profunda e mais entusiasmada possível.

Essa experiência com  Ana Thomaz me fez ver isso. Seu filho tem um brilho no olhar, tem uma segurança no que faz que poucas pessoas demonstram. Foi encantador vê-lo brincar com o que ama fazer. A mágica que eu assisti ia além da habilidade em brincar com os objetos e com a expectativa do publico. A verdadeira mágica estava na segurança, na coragem, no brilho que ele demostrava.  Isso só é possível com liberdade.

Precisamos sair da inércia, reconectar com nosso corpo e nos comunicar com nosso eu verdadeiro para desenvolver essa confiança e confiar em nossos filhos. Não é fácil, mas já demos o primeiro passo. Estamos buscando e nos informando. Continuemos juntos, co-criando nossos filhos e a nós mesmos. Assim poderemos encontrar o melhor caminho para cada um sem esquecer que o melhor caminho para nossos filhos é a liberdade de criação.

Quero agradecer a todos os co-criadores por tornar possível a realização desse evento. Agradecer a Ana Thomaz e seus filhos por dedicar seu tempo para nos contar um pouco de suas experiências.

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2 respostas a Desescolarizar-se – Relato da vivência com Ana Thomaz

  1. Pois é,m quando eu assisti a entrevista da ana, o vimos em família, pensamos e falamos mto sobre, e nos demos conta de como nós somos mesmo escolarizado, que está mto enraizado, por gerações e gerações. então é realmente difícil, principalmente quando penso na vida econômica, nos pequenos detalhes do dia a dia. porque viver a desescolarização não é tão simples e fácil como “tirar a escola de você”. não é bem por aí. é vc seguir os seus desejos e viver o momento, o presente. mas nós aprendemos que segurança é patrimônio e só se constrói patrimônio planejando, agindo pro futuro. Então a gente entra num jogo interminável, escola, faculdade, mestrado, doutorado, concurso, cursos e não pára. e vc fica lá sonhando com sua casinha no campo, tranquila e essa dia não chega, porque vc passou a vida buscando estabilidade e n viveu plenamente o aquiagora, o presente, os seus desejos, os seus instintos. mas não é fácil mesmo. viver a desescolarização é fazer uma revolução na sua vida. é vc ter tempo, disponibilidade para estar com seu filho, em família, querendo sempre aprender, sempre experimentando. e aí q entra a parte difícil da historia: a questão econômica mesmo, como pagar aluguel, água, luz, gás, comida? são apenas coisinhas práticas q me deparo. mas é um desafio vc ao menos pensar sobre! eu tenho exercido essa reflexão constantemente, ameaças, chantagens, prêmios, castigos, todos instrumentos de poder e autoritarismo mto enraizados em nós, temos q vomitar toda essa desescolarização dentro de nós, matar a barbie, a xuxa, o rambo e super man dentro de nós.

  2. ana thomaz disse:

    fiquei emocionada ao ler esse texto!
    grata pela abertura com que nos receberam, por toda troca que vivemos nesse encontro que tanto me ensinou.
    grande beijo

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